Muitos Carnavais

quinta-feira, outubro 21, 2004

Ele me deu um beijo na boca

"Ele me deu um beijo na boca e me disse: a vida é oca como a toca de um bebê sem cabeça"

Impressiona-me encontrar pessoas cujos preconceitos tão aflorados são travestidos como preocupação com a vida alheia. Impressiona-me, muito mais, ainda me sentir incomodado com esse tipo de comentário.

Em um mundo em que a opção sexual de cada um não se distância muito da escolha da roupa de cada dia, frases como "eu não sei o que faria se descobrisse que meu/minha filho/filha é..." e "coitada de fulana que acabou de descobrir que o/a filho/filha é..." soam falsas, desprovidas de uma real preocupação com o bem estar das pessoas envolvidas.

De fato, é diferente do que ocorria há poucas décadas, época em que várias questões sexuais eram ainda tidas como tabu em quase todos os círculos sociais. Naquele tempo, existia a real preocupação com o que poderia ocorrer com uma família em que fosse descoberto o que ainda era visto como um "desvio de personalidade".

Hoje, uma frase como as citadas dois parágrafos acima normalmente é acompanhada por um riso irônico ou um olhar debochado... Indício claro da mudança de norte que nossa sociedade tomou, ao menos na percepção de que valores deve seguir.

Pergunta-se, então, não como pretenso moralista, mas sim como verdadeiro curioso, perdido neste novo tempo: que valores são esses? Em uma sociedade em que a imagem aparentemente transforma o modo de pensar de todos e em que estar “in” é não ser hétero (coisa careta e ultrapassada), parece-me muito mais fácil juntar-me à multidão do que pensar em uma possível lógica para tudo isso.

Talvez Caetano tenha feito a coisa certa quando, muito antes de toda essa mudança de comportamento ocasionada pela explosão da beleza andrógena e dos falsos bissexuais, já cantou:

“Ele me deu um beijo na boca... e eu correspondi àquele beijo”