Muitos Carnavais

quinta-feira, outubro 28, 2004

A suposta existência

“Como é o lugar quando ninguém passa por ele? Existem as coisas sem ser vistas? O interior do apartamento desabitado? A pinça esquecida na gaveta? Os eucaliptos à noite no caminho três vezes deserto? A formiga sob a terra no domingo? Os mortos, um minuto depois de sepultados? E nós, sozinhos no quarto sem espelho.” (Carlos Drummond de Andrade)

“Que importa a paisagem, a glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco!” (Manuel Bandeira)

Isso ocorre toda vez que volto a Belém... Um misto de alegria por rever a cidade em que me criei e de receio, por não mais saber o que posso nela encontrar...

A verdade é que faz tempo que não consigo me sentir verdadeiramente em casa quando vou à “Cidade das Mangueiras”... A cada visita, a cidade parece diminuir, fechando-se em cima de mim.

Ocorre que também não me sinto à vontade o suficiente para dizer que Brasília é meu novo lar... O máximo que posso dizer é que, quem já mora aqui há um período razoável de tempo tende a se acostumar com o ritmo da cidade (dá pra ir levando).

Contudo, se não sou capaz de me ver nem em um lugar, nem em outro, onde estou?

Esse limbo em que, racionalmente (mas não intencionalmente), me coloquei foi, sem dúvida, agravado com a minha graduação. As novas perguntas que surgiram (o que fazer agora? Investir em uma profissão que não consigo me enxergar praticando no futuro? Começar um novo curso? O que vale a pena?) só ajudaram a balançar ainda mais a frágil corda em que venho me equilibrando...

Problema maior é que a vida não espera que você considere todas as opções para, depois de detida e profícua análise, tomar uma decisão completamente informada. Se assim o fosse, tudo seriam flores (rosas sem espinhos) e a vida, um verdadeiro passeio no parque.

Talvez a questão maior (uma vez que é muito pouco provável a invenção de um aparelho que faça o tempo parar), então, não seja necessariamente como tomar as decisões mais acertadas, das quais teremos certeza de que não haverá arrependimento.

Talvez o que seja realmente importante é tomar a decisão, não sendo tão relevante se, no futuro, tenhamos que fazer alguns “consertos”.

Talvez, finalmente, viver seja necessariamente um constante aprendizado a partir de erros passados (seus e de outros), cabendo a você, unicamente, decidir se a recompensa que se almeja vale os riscos que normalmente se apresentam no caminho. No meu caso, particularmente, só posso dizer:

“Do que adianta você ter esta alma colada aos ossos dessa carne errada? Sem o risco, a vida não vale a pena” (Goethe)

quinta-feira, outubro 21, 2004

Ele me deu um beijo na boca

"Ele me deu um beijo na boca e me disse: a vida é oca como a toca de um bebê sem cabeça"

Impressiona-me encontrar pessoas cujos preconceitos tão aflorados são travestidos como preocupação com a vida alheia. Impressiona-me, muito mais, ainda me sentir incomodado com esse tipo de comentário.

Em um mundo em que a opção sexual de cada um não se distância muito da escolha da roupa de cada dia, frases como "eu não sei o que faria se descobrisse que meu/minha filho/filha é..." e "coitada de fulana que acabou de descobrir que o/a filho/filha é..." soam falsas, desprovidas de uma real preocupação com o bem estar das pessoas envolvidas.

De fato, é diferente do que ocorria há poucas décadas, época em que várias questões sexuais eram ainda tidas como tabu em quase todos os círculos sociais. Naquele tempo, existia a real preocupação com o que poderia ocorrer com uma família em que fosse descoberto o que ainda era visto como um "desvio de personalidade".

Hoje, uma frase como as citadas dois parágrafos acima normalmente é acompanhada por um riso irônico ou um olhar debochado... Indício claro da mudança de norte que nossa sociedade tomou, ao menos na percepção de que valores deve seguir.

Pergunta-se, então, não como pretenso moralista, mas sim como verdadeiro curioso, perdido neste novo tempo: que valores são esses? Em uma sociedade em que a imagem aparentemente transforma o modo de pensar de todos e em que estar “in” é não ser hétero (coisa careta e ultrapassada), parece-me muito mais fácil juntar-me à multidão do que pensar em uma possível lógica para tudo isso.

Talvez Caetano tenha feito a coisa certa quando, muito antes de toda essa mudança de comportamento ocasionada pela explosão da beleza andrógena e dos falsos bissexuais, já cantou:

“Ele me deu um beijo na boca... e eu correspondi àquele beijo”

terça-feira, outubro 19, 2004

O Quereres

"Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não"

Impressionante como algumas poucas frases podem resumir de maneira tão completa um momento de nossas vidas...

Então... Iniciamos os trabalhos na feitura de um Blog que muito pouco visa a acrescentar a qualquer coisa. Dedicado exclusivamente aos interesses egotísticos deste que vos escreve esta é apenas mais uma página na internet em que poderá ser encontrado verdadeiro monólogo, muito pouco preocupado em atingir resultado algum (uau, sério? mais um? próximo, por favor).